O domínio muçulmano da Península Ibérica

 


O domínio muçulmano da Península Ibérica é um dos capítulos mais interessantes da história europeia, esclarecer o imaginário popular sobre os factos reais que ocorreram antes e durante os quase oito séculos de domínio dos muçulmanos em terras que viriam a ser conhecidas como o al‑Andalus.  Um período que moldou ligeiramente a cultura, a linguagem, a política e a sociedade da região.  

O legado muçulmano na Península Ibérica (al‑Andalus) transcende a arquitetura deslumbrante de palácios como o Alhambra, situado na cidade espanhola de Granada e de mesquitas como a de Córdova.  A influência técnica muçulmana permeou áreas como agricultura, medicina, astronomia, matemática e filosofia.  Além disso, deixou marcas nas línguas portuguesa e espanhola, com dezenas de palavras de origem árabe ainda em uso.  

Sempre que se fala no domínio muçulmano da Península Ibérica, a maioria das pessoas, pouco conhecedoras da história, imaginam milhares de guerreiros muçulmanos, fundamentalistas religiosos, desembarcando nas praias e a correrem de encontro aos guerreiros cristãos (visigodos) para combaterem.  Ora este imaginário típico de um filme de Hollywood é completamente equivocado.  Não foi assim que aconteceu!...  Além de que, dominar, não é a mesma coisa que colonizar ou ocupar as terras.



NO   PRINCIPIO:

Antes de existirem Portugal e Espanha, a Península Ibérica foi palco de muitos acontecimentos que marcaram a vida das pouquíssimas pessoas que aqui se haviam fixado.  

Os primeiros seres humanos que viveram na Península Ibérica, eram caçadores recoletores e remontam aos períodos paleolítico e neolítico

No calcolítico.  Os povoados eram devidamente fortificados, dando a entender que se tratavam de sociedades que conheciam e praticavam formas de guerra planeadas e organizadas.  

Os iberos, destacam‑se propriamente dito como os primeiros habitantes e ocupavam o sul e o leste da região durante a Idade do Bronze.  Posteriormente, os celtas migraram da Europa Central para o noroeste peninsular, miscigenaram‑se com os iberos e daí resultou a formação dos celtiberos, este grupo incluía tribos como os célticos, os cónios, os calaicos, os bascos e os lusitanos, sendo esta última tribo a mais aguerrida e despótica.  

A partir do século X a.C., surgiram na Península Ibérica alguns “colonizadores” mediterrânicos, eles eram constituídos principalmente por comerciantes provenientes da Fenícia, Grécia e Cartago, que aqui estabeleceram colónias comerciais.   

A pesar de nada constar nos escritos dos principais historiadores portugueses, alguns autores judaicos fazem referência que juntamente com os fenícios veio para a Península Ibérica uma diáspora judaica por volta do século VIII a.C., outros apontam para o século III a.C. e outros ainda, apontam para o século II d.C. após a destruição de Jerusalém, sendo esta última a data mais provável.  Todavia, a verdade é que no período anterior e durante o domínio romano, os judeus pouca ou nenhuma influência tiveram na Península Ibérica.  



A  COLONIZAÇÃO:

Anos mais tarde houve uma segunda vaga de colonizadores.  Iniciou‑se com os Romanos, no século III a.C., que dominaram a região após duros confrontos com os cartagineses, com celtiberos e por último com os lusitanos liderados por Viriato.  Uma vez derrotados os lusitanos, a península foi integrada no Império Romano e assim se manteve até ao século V d.C.  Foi no período do domínio romano que o cristianismo se propagou na Península Ibérica.  

Depois dos romanos, os seguintes a chegar foram os alanos, os vândalos e os suevos, só mais tarde vieram os visigodos, todos eles chegaram no século V d.C., provenientes também da região alemã da Suábia.  Eram todos povos de origem germânica que substituíram o domínio romano após a queda do Império.  



DISPUTAS  INTERNAS  E  TRAIÇÕES:

Entretanto, os alanos seguiram para o Norte de África e os vândalos foram derrotados por uma aliança entre os suevos e os romanos.  Os suevos estabeleceram um reino entre a Galiza e o rio Tejo, e os visigodos ficaram com o restante da península.  



Os visigodos eram um povo guerreiro mas “dividido” internamente, então, um grupo de fanáticos partidários do falecido rei Vitiza, detestavam o novo rei, o Rodrigo.  Por esse motivo, no ano 710, Akhila, que era o filho mais velho do falecido Vitiza, desleal ao novo rei, desloca‑se numa delegação a Tânger e pediram a um líder muçulmano que viesse à Península Ibérica e os ajudassem a deporem o rei Rodrigo.  Esse líder muçulmano encarregou um chefe militar de nome Tariq ben Ziad que executasse essa tarefa.  

Esse grupo de traidores, pediram também a colaboração dos judeus sefarditas que viviam na península.  Estes aceitaram prontamente uma vez que, eram vítimas de perseguições religiosas e conversões forçadas ao cristianismo e sob o domínio muçulmano poderiam praticar o judaísmo livremente mediante o pagamento de um imposto chamado jizya.   Foi então por esta razão, que os judeus sefarditas ibéricos desempenharam um papel muito relevante na logística da invasão muçulmana.  



O  DOMÍNIO  MUÇULMANO:

Uma vez em solo ibérico, no mês de abril do ano 711, o exército de Tariq avançou rapidamente até Hispalis,10 aí encontrou a oposição do exército do rei Rodrigo que era duas vezes mais numeroso.  A batalha deu‑se em 31 de julho desse mesmo ano, nas margens do rio Guadalete, que desagua em Cádiz.  No momento decisivo da batalha, os partidários do falecido rei Vitiza traíram o rei Rodrigo e passam para o lado dos muçulmanos.  O exército do rei Rodrigo sofre uma pesada derrota.  Em seguida, Tariq avança com o seu exército para Toledo que era a capital do reino visigodo, conquista a cidade e declara‑a  sujeita ao califa de Damasco.  Após a conquista de Toledo, Tariq rapidamente conquistou toda a Península Ibérica com excepção das Astúrias.  

O avanço no terreno para Norte das tropas de Tariq implicava um rápido desgaste no número de homens.  Estes não só eram necessários para combater como também eram necessários para permanecer nas guarnições de ocupação das cidades.  Então, Tariq recorreu aos judeus ibéricos (sefarditas) que passaram a integrar essas guarnições e a ajudarem a manter a ordem e a administração das cidades. 



EM  CONCLUSÃO:

Enquanto estiveram na Península Ibérica os muçulmanos, como era de esperar, destruíram algumas igrejas, impuseram as suas leis e taxas, fizeram vários saques, violações e assassinatos, principalmente a todos os que ousavam resistir ás novas ordenanças.

Contudo, contrariamente ao que passa pela cabeça do imaginário popular, a verdade é que o domínio dos muçulmanos não foi seguido de uma entrada de multidões de pessoas à semelhança dos fluxos imigratórios actuais.  Tratou‑se mais de uma forte presença militar ao estilo do Império Romano e não de um fluxo populacional.  

Assim, a pesar de haver uma supraestrutura militar de domínio muçulmano, por baixo o substrato populacional continuava a ser visigodo.  Os muçulmanos deixaram algumas marcas da sua presença, nomeadamente palácios, mesquitas e alguma influência cultural, mas a linguagem continuou de origem latina, a religião continuou cristã, a observância da lei e dos costumes continuou europeia e a genética da população manteve‑se europeia.  

A Península Ibérica, tal como hoje, era uma região com poucos recursos naturais, pobre e periférica, pelo que, as populações preferiam imigrar para centros económicos muito mais atractivos, tais como, Damasco, Cairo, Bagdad, Constantinopla, Veneza, etc.

Concluindo: houve um domínio muçulmano, sim!...  Mas uma colonização ou ocupação de povos muçulmanos, não!...

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